Pais da Igreja e a Intercessão dos Santos

Estudos Patrísticos
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INTRODUÇÃO


Nesta matéria abordaremos como a Igreja primitiva cria e ensinava que os santos que partiram desta vida para habitar com Cristo, podem orar e interceder junto a nós, e nós podemos suplicar por suas orações a Deus, já que estes gozam da visão beatifica de Deus.

Tal fato é tão forte e evidente na Igreja primitiva que nem mesmo os adeptos da heresia iconoclasta puderam negar isto em seus conciliábulo de Hieira. Também até mesmo um dos maiores historiadores protestantes sobre a Igreja Primitiva reconhece isto, e diz que:

Um fenômeno de grande significação no período patrístico foi o surgimento e gradual desenvolvimento da veneração aos santos, mais particularmente à bem-aventurada virgem Maria […] Logo após vinha o culto aos mártires, os heróis da fé que os primeiros cristãos afirmavam já estarem na presença de Deus e gloriosos em sua visão. Em primeiro lugar tomou forma de uma preservação das relíquias e da celebração anual de seu nascimento. A partir daí foi um pequeno passo, pois já estavam participando com Cristo da glória celeste, para que se buscassem suas orações, e já no terceiro século se acumulam as evidências da crença no poder da intercessão dos santos.” (J.N.D. Kelly, Early Christian Doctrines, revised edition (San Francisco: Harper, c. 1979), p. 490)

 

INTERCESSÃO DOS SANTOS NA IGREJA PRIMITIVA


Como as seguintes passagens mostram, a Igreja primitiva não só claramente reconhecia o ensino bíblico que aqueles que estão no céu podem interceder por nós, mas também aplicavam esse ensinamento em sua própria vida de oração diária.

 

SANTO INÁCIO DE ANTIOQUIA


 Meu espírito se sacrifica por vós, não somente agora, mas também quando eu chegar a Deus”. (Aos Tralianos, n. 13,3)

 

O PASTOR DE HERMAS


 O pastor de Hermas é uma obra apocalíptica da primeira metade do século II depois de Cristo. Nesta obra temos a seguinte citação:

“ Eu lhe pedi insistentemente que me explicasse o sentido simbólico do campo, do senhor, da vinha, do escravo que estaqueara a vinha, do filho e dos amigos conselheiros, pois compreendera que tudo isso era uma parábola. Ele me respondeu: "És muito ousado em tuas perguntas! De modo algum deves perguntar, pois, se alguma coisa se deve explicar a ti, será explicada." Eu lhe disse: "Senhor, tudo o que me mostrares sem explicar, será inútil que eu veja, pois não compreenderei o que significa. Da mesma forma, se me contas parábolas sem explicá-las, terei ouvido em vão alguma coisa de ti." De novo, ele me respondeu, dizendo: "Todo servo de Deus que tem o Senhor em seu coração, pode lhe pedir a compreensão e obtê-la. Ele poderá, então, explicar qualquer parábola e, graças ao Senhor, tudo o que for dito em parábolas será compreensível para ele. Os indolentes e preguiçosos para a oração, porém, vacilam em pedir ao Senhor. O Senhor é misericordioso e atende todos os que lhe pedem sem hesitação. Tu, porém, que foste fortificado pelo anjo glorioso e dele recebeste essa oração, e não és preguiçoso, por que não pedes a compreensão? Tu a receberás." Eu repliquei: "Senhor, tendo a ti comigo, tenho necessidade de te pedir e perguntar. Com efeito, tu me mostras tudo e falas comigo. Se eu visse ou ouvisse essas coisas sem ti, pediria ao Senhor que as explicasse a mim". (Hermas Livro III, 57 [8])

 

CLEMENTE DE ALEXANDRIA


 Deste modo está ele [o verdadeiro cristão] sempre puro para oração. Ele também reza na sociedade dos anjos, como sendo já da classe dos anjos, e ele nunca está fora da sagrada proteção deles; e pensou que rezava sozinho, [mas] ele tem o coro dos santos permanecendo com ele [em oração]” (Miscellanies 7, 12).

 

ORÍGENES


 Ilustre teólogo e escritor eclesiástico. Nascido em Alexandria por volta do ano 231, foi reconhecido como o maior mestre da doutrina cristã em sua época, exercendo uma extraordinária influência como intérprete da Bíblia.

Agora, súplicas, ações de graças e apelos podem ser oferecidas para as pessoas sem impropriedade. Dois deles, ou seja implorando e dando graças, pode ser oferecido não só para os santos, mas para pessoas sozinhas, em geral, ao passo que súplica deve ser oferecida aos santos somente, deve haver encontrado um Paulo ou um Pedro, que podem beneficiar-nos e fazer-nos dignos para atingir autoridade para o perdão dos pecados.” (Sobre a Oração, 14,6)

O Sumo Sacerdote (Cristo) não é o único a se unir aos orantes, mas também os anjos[...] como também as almas dos santos que já dormem. (Oração 11)

 

CIPRIANO DE CARTAGO


 Lembremo-nos uns aos outros em concórdia e unanimidade. Que em ambos os lados [da morte] sempre oremos uns pelos outros. Vamos aliviar o fardo e as aflições por amor recíproco, que se um de nós, com a rapidez da condescendência divina, for primeiro, o nosso amor possa continuar na presença do Senhor, e as nossas orações por nossos irmãos e irmãs não cessam com a presença da misericórdia do Pai.” (Carta 56 [60], 5).

 

METÓDIO


 Salve a ti para sempre, Virgem Mãe de Deus, nossa alegria incessante, pois a ti Eu volto novamente. Tu és o início de nossa festa; Tu és o seu meio e fim, a pérola de grande valor, que pertence ao reino; a gordura de cada vítima, o altar vivo do Pão da Vida. Salve, a ti, tesouro do amor de Deus. Salve, a ti,  fonte de amor do Filho para o homem [...] você brilhava, doce outorgante Mãe , com a luz do sol, você brilhou com os fogos insuportáveis da mais fervorosa caridade, trazendo no final, aquele que foi concebido de você [...] para manifestar o mistério escondido e indizível, o Filho do Pai invisível, o Príncipe da Paz, que de uma forma maravilhosa mostrou-se como menos do que toda pequenez.”(Oração sobre Simeão e Ana 14).

Por isso, oramos a ti, o mais excelente entre as mulheres, que se gloria na confiança dos suas honras maternais, que tu incessantemente nos mantem na lembrança. Ó Santa Mãe de Deus, lembre-se de nós, eu digo, que faça a nossa gloria em você, e que em agosto, hinos celebraremos a memória, que sempre vai viver, e nunca desaparecer” (ibid.).

E você também, ó honrado e venerável Simeão, ancestral de nossa santa religião e professor da ressurreição dos fiéis, seja o nosso patrono e defensor com o Deus Salvador, a quem você foi considerado digno de receber em seus braços. Nós, juntos com você, cantamos nossos louvores a Cristo, que tem o poder de vida e morte, dizendo: ‘Você é a luz verdadeira, proveniente da luz verdadeira, o verdadeiro Deus, gerado do verdadeiro Deus.’” (ibid. ).

 

CIRÍLO DE JERUSALÉM


 Então, [durante a oração eucarística] nos lembramos também daqueles que adormeceram antes de nós: primeiro os patriarcas, profetas, apóstolos e mártires, para que Deus, por meio de suas orações e súplicas, se digne a receber às nossas”. (Leituras Catequéticas 23, 9)

 

EFRAIM O SÍRIO


 Você mártires vitoriosos que sofreram tormentos de bom grado por amor de Deus e Salvador, vocês que tem coragem de falar para o próprio Senhor, vocês santos, intercedam por nós, que somos homens tímidos e pecadores, cheios de preguiça, que a graça de Cristo possa vir sobre nós, e ilumine os corações de todos nós para que possamos amá-lo. (Comentário sobre Marcos).

Lembre-se de mim, herdeiros de Deus, irmãos de Cristo,  supliquem ao Salvador fervorosamente por mim, para que eu possa ser libertado por meio de Cristo daquele que luta contra mim no dia a dia”. (O Medo no Fim da Vida).

 

GREGÓRIO DE NAZIANZO


 Orando a são Cipriano ele diz:

Que você olhe para baixo de cima propíciamente sobre nós, e oriente a nossa palavra e da vida, e pastoreou este rebanho sagrado... alegrar a Santíssima Trindade, diante da qual tu estas”. (Orações 17 [24]).

Sobre seu próprio pai ele diz:

Sim, eu estou bem certo de que a intercessão é de mais valia agora do que era a sua instrução em dias anteriores, já que ele está mais perto de Deus, agora que ele se recuperou de seus grilhões do corpo, e libertou sua mente do barro que obscurecia, e tem conversa limpa com a limpeza da mente nobre e pura... (Orações, 18, 4).

 

GREGÓRIO DE NISSA


[Efraim], você que estão de pé no altar divino... apoia-nos a todos em lembrança, peticionando por nós a remissão dos pecados, e a frutificação de um reino eterno”. (Sermão Sobre Efraim, o sírio).

 

JOÃO CRISÓSTOMO


 Doutor da Igreja, nascido em Antioquia, em 347 d.C, morreu em Commana em Pontus em 14 de Setembro de 407. É considerado o mais proeminente Doutor da Igreja Grega e tido como o maior pregador que já subiu em um púlpito cristão.

Aquele que usa o roxo [...] está pedindo aos santos para serem seus patronos com Deus, e aquele que usa um diadema implora ao fabricante de tendas [Paulo] e o pescador [Pedro] como patronos, mesmo ainda estejam mortos”. (Homilias sobre II Coríntios, 26).

 

AMBRÓSIO DE MILÃO


 Que Pedro, que chorou tão eficazmente por si mesmo, chore por nós e trazer para nós o semblante benigno de Cristo”. (O trabalho dos Seis Dias 5:25:90 [AD 393]).

 

SÃO JERÔNIMO


 Você diz em seu livro que enquanto vivemos, somos capazes de orar uns pelos outros, mas depois, quando morremos, a oração de nenhuma pessoa para outra pode ser ouvida [...] Se os Apóstolos e mártires, enquanto estava em sua carne mortal, e ainda necessitados de cuidar de si, ainda podia orar pelos outros, muito mais agora que já receberam a coroa de suas vitórias e triunfos. Moisés, um só homem, alcançou de Deus o perdão para 600 mil homens armados; e Estevão, para seus perseguidores. Serão menos poderosos agora que reinam com Cristo? São Paulo diz que com suas orações salvaram a vida de 276 homens, que seguiam com ele no navio [naufrágio na ilha de Malta]. E depois de sua morte, cessará sua boca e não pronunciará uma só palavra em favor daqueles que no mundo, por seu intermédio, creram no Evangelho? (Contra Vigilâncio 6)

 

SANTO AGOSTINHO


Bispo de Hipona e doutor da Igreja, é reconhecido como um dos quatro doutores mais distintos da Igreja latina. Nasceu em 354 e chegou a ser bispo de Hipona durante 34 anos. Combateu duramente todas as heresias de sua época e morreu no ano 430.

Um povo cristão celebra unidos em solenidade religiosa o memorial dos mártires, tanto para encorajar e ser imitado quanto para que possamos participar de seus méritos e serem auxiliados pelas suas orações. Mas é tal que os nossos altares estão definidos para qualquer dos mártires - mas apenas em sua memória -, mas ao próprio Deus, o Deus dos mártires. (Agostinho, Contra Fausto o maniqueísta).

Quando o bispo Projectus estava trazendo as relíquias do glorioso mártir Estevão às águas do Tibilis, uma grande multidão de pessoas veio para encontrá-lo no santuário. Há uma mulher cega suplicou que ela fosse levada ao bispo que estava carregando as relíquias. Ele deu a ela as flores que ele estava carregando. Ela levou, aplicou-as a seus olhos, e imediatamente viu.” (Cidade de Deus, Livro XXII).

Há uma disciplina eclesiástica, como a conhecem fiel, quando os nomes dos mártires são lidos em voz alta em que lugar no altar de Deus, onde a oração não é oferecida eles. Oração, no entanto, é oferecida para os mortos que são lembrados . Pois é errado rezar por um mártir, cujas orações devem ser nos encomendadas.” (Sermões 159, 1).

Na mesa do Senhor nós não comemoramos os mártires da mesma forma que fazemos outros que descansam em paz, a fim de orar por eles, pelo contrário que eles possam orar por nós para que possamos seguir os seus passos.” (Homilias sobre João 84 [AD 416]).

Nem são as almas dos mortos piedosos separadas da Igreja, que até mesmo agora é o reino de Cristo. Caso contrário, não haveria memória deles no altar de Deus na comunhão do Corpo de Cristo.” (A Cidade de Deus 20, 09, 02)

 

LEÃO MAGNO


 No momento da nossa própria chegada à cidade antiga, estávamos envolvidos em prestar a nossa devoção ao Santíssimo Apóstolo Pedro, no próprio altar do mártir, o Reverendíssimo Bispo Leão, esperando algum tempo após o serviço proferiu lamentos sobre a fé católica para nós, e tendo a testemunhar o chefe do próprio apóstolos da mesma forma” (Leão Magno – Carta 56)

 Na quarta-feira e sexta-feira próxima, portanto, vamos jejuar, e no sábado vigiar com o beatíssimo apóstolo Pedro, por cujas orações nós podemos em todas as coisas obter a proteção divina por Cristo, nosso Senhor. Amen.” (Leão Magno – Carta 17)

 

CONCLUSÃO


Estas evidências mostram que a Igreja sempre teve a consciência plena de que os santos que partiram desta terra e estão no céu podem interceder por aqueles que estão aqui na terra, e os que estão na terra podem implorar por sua intercessão. Surpreendentemente tanto os padres do oriente como do ocidente interpretam as palavras de Cristo tal como nós católicos fazemos quase vinte séculos depois. É evidente, portanto, que a Igreja atual somente faz eco ao Igreja de outrora já ensinava e até mesmo combatia os hereges dos primeiros séculos, como no caso de Jerônimo contra Vigilâncio.

 

PARA CITAR


RODRIGUES, Rafael. Pais da Igreja e a Intercessão dos Santos. Disponível em: <http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/patristica/estudos-patristicos/616-pais-da-igreja-e-a-intercessao-dos-santos >. Desde 18/09/2013.

 

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